O peido e a percepção do outro
De que inalar o próprio peido é algo prazeroso não tenho dúvida. Antes de retorcer a cara em desaprovação, faço um convite: lembre-se do último flato solitário que você exteriorizou. O que você fez? Abanou para longe? Duvido! Refiro-me àquela erupção gasosa debaixo do cobertor que, se arde nos olhos e narinas, é a própria experiência da sublimação do "conforto de si mesmo". Em suma: a experiência exteriorizada de si próprio. Ainda que em poucas palavras, expliquemo-nos a partir de agora.
Escolho o peido como a salvação da vida em sociedade por se tratar de um ato de natureza único, política e femomenológica ao mesmo tempo, por proporcionar não só uma autodescoberta do sujeito enquanto outro (o peido deflagrado) mas também – e muito por conta dessa "duplicação do eu" – do inevitável desvelamento do "outro político" ao sujeito até então enclausurado em sua miserável existência.
Como dito acima, é evidente que o peido pode ser tratado como uma verdadeira "duplicação do eu". Aristóteles poderia dizer que nos vemos no reflexo do olho do outro, mas acredito que o peido pode se tratar de algo mais poderoso neste caso (pelo menos em termos políticos). O poder do flato teria seu poder justamente aí, por não carregar o conteúdo visual da figura humana, tão carregada das idiossincrasias de cada um de nós e, portanto, tão enfraquecido de universalidade. O peido, mesmo aquele mais fedido, funciona como uma espécie de denominador político comum pois, ao mesmo tempo emque seu odor aconchegantemente característico denuncia a presença humana, não diz de fato nada a respeito do autor do flato em questão. Com efeito, não importa quem peidou, mas que alguém o fez.
Trilhando esse caminho do cogito flatulento do "eu peido", passando pela fenomenologia quase merleau-pontyiana (meramente no que tange a questão fenomenológica) da "duplicação do eu", chegamos então à inegável percepção da universalidade: qualquer um peida. Afirmar-se como homo flatus pode parecer pouca coisa mas é lastro social inegável: eu peido, ele peida, todo mundo peida! No limite, é a garantia cartesiana de que em algum registro é possível que eu me identifque com o outro no ato de peidar. Mais ainda: posso até sentir nojo ao inalar o flato alheio, mas isso é insignificante quando pensamos quesomos capazes de ter a mínima noção do prazer que aquilo que deixa nossas narinas mornas deu ao autor do peido em questão. Não estamos falando de tolerância ao peido alheio visto que tolerar, em algum sentido, é diminuir o outro diante de si (só toleramos aquilo que pensamos ser "menor" que nós, afinal de contas) mas de um novo conceito nas relações sociais. Lembrando Marcel Mauss, estaríamos falando de uma espécie de "reciprocidade social" cujos protagonistas seriam o peido de um e as narinas do outro. Enfim – e Hannah Arendt não nos desautorizaria afirmá-lo –, peidar é a própria consumação da ação política!
Peidemos e confraternizemos!
Escolho o peido como a salvação da vida em sociedade por se tratar de um ato de natureza único, política e femomenológica ao mesmo tempo, por proporcionar não só uma autodescoberta do sujeito enquanto outro (o peido deflagrado) mas também – e muito por conta dessa "duplicação do eu" – do inevitável desvelamento do "outro político" ao sujeito até então enclausurado em sua miserável existência.
Como dito acima, é evidente que o peido pode ser tratado como uma verdadeira "duplicação do eu". Aristóteles poderia dizer que nos vemos no reflexo do olho do outro, mas acredito que o peido pode se tratar de algo mais poderoso neste caso (pelo menos em termos políticos). O poder do flato teria seu poder justamente aí, por não carregar o conteúdo visual da figura humana, tão carregada das idiossincrasias de cada um de nós e, portanto, tão enfraquecido de universalidade. O peido, mesmo aquele mais fedido, funciona como uma espécie de denominador político comum pois, ao mesmo tempo emque seu odor aconchegantemente característico denuncia a presença humana, não diz de fato nada a respeito do autor do flato em questão. Com efeito, não importa quem peidou, mas que alguém o fez.
Trilhando esse caminho do cogito flatulento do "eu peido", passando pela fenomenologia quase merleau-pontyiana (meramente no que tange a questão fenomenológica) da "duplicação do eu", chegamos então à inegável percepção da universalidade: qualquer um peida. Afirmar-se como homo flatus pode parecer pouca coisa mas é lastro social inegável: eu peido, ele peida, todo mundo peida! No limite, é a garantia cartesiana de que em algum registro é possível que eu me identifque com o outro no ato de peidar. Mais ainda: posso até sentir nojo ao inalar o flato alheio, mas isso é insignificante quando pensamos quesomos capazes de ter a mínima noção do prazer que aquilo que deixa nossas narinas mornas deu ao autor do peido em questão. Não estamos falando de tolerância ao peido alheio visto que tolerar, em algum sentido, é diminuir o outro diante de si (só toleramos aquilo que pensamos ser "menor" que nós, afinal de contas) mas de um novo conceito nas relações sociais. Lembrando Marcel Mauss, estaríamos falando de uma espécie de "reciprocidade social" cujos protagonistas seriam o peido de um e as narinas do outro. Enfim – e Hannah Arendt não nos desautorizaria afirmá-lo –, peidar é a própria consumação da ação política!
Peidemos e confraternizemos!

0 Comments:
Post a Comment
<< Home