Shine on, Syd!
Devo admitir que há uns quatro anos jurei que não ousaria incomodar o mundo mais uma vez com boçalidades, e digo que suportei bem durante esse tempo todo principalmente pela falta do que escrever, ou por ter descoberto que nunca tive muita coisa importante para escrever, mesmo achando até então que tivesse alguma coisa importante para escrever. De quatro anos para cá continuo escrevendo mais ou menos da mesma maneira, vivendo mais ou menos da mesma maneira e não tendo algo mais ou menos relevante que merecesse meia hora diante do processador de texto, mas o fato é que três anos de sofríveis dissertações sobre filosofia me fizeram chegar à conclusão de que a única coisa sobre a qual sei escrever é justamente a falta do que escrever.
Passava das sete da noite e ainda me encontrava no trabalho quando algo aparece na tela do computador. “ENC: Morre Syd Barrett, fundador do Pink Floyd” era o assunto do e-mail, e aquele “ENC” à frente do título dava a forte impressão de que se tratava de mais um desses trotes cibernéticos imbecis. O problema deste trote era a falta do detalhe principal dos trotes imbecis: eles costumam ser grandes mentiras. Minha primeira reação foi não ter reação para, logo depois, pensar em ligar para um colega que é doente pela banda, e minha terceira reação foi a de não reagir novamente, o que me leva ao presente momento. Tenho o infeliz costume de pensar mais do que devia acerca de coisas que talvez são evidentes demais para merecer tamanha reflexão, mas fiquei atônito justamente pelo fato de não ter ficado atônito: descobri da pior maneira que não gostava de algo tanto quanto eu gostaria, ou de quem pelo menos, tinha certeza de que gostava. Sempre gostei mais dos discos da fase posterior à do Syd, mas ter que pesquisar no google com quantos “m” se escreve Ummagumma automaticamente me tira o direito ao sofrimento. Justamente dias após a saída do Brasil da copa do mundo, quando condenei metade da população por tentarem dividir um sofrimento que pertencia somente a mim e mais meia-dúzia de cretinos que se julgam o dono do universo paralelo do futebol somente pelo fato de gastar mais com camisas de futebol que com livros, por exemplo. Só me sinto tão hipócrita dessa maneira quando como bacalhau na semana santa.
É bem provável dia em que meus pais ou o Paul McCartney morra eu sinta aquela tristeza de verdade, aquela que você sente por causa de alguém, e não por causa de você mesmo, que está triste por não conseguir a proeza de ficar triste. Por algum tempo concedi a mim mesmo o direito de ficar triste pelo fato de saber que todo cara que tem uma guitarra encostada em casa tem o Syd como um xodó que você sempre acha que um dia vai voltar, como aquele tio legal que te visita de vez em quando e que por causa dele você é corintiano ou palmeirense, a copa que você torce para que o Zagallo ganhe de novo. Mas quando penso em mim pensando nisso vejo que há algum tempo digo que “nasci corintiano” e que toda vez que a câmera enquadrava o velho lobo durante os jogos da copa toda frase continha expressões como “empacotar”, “paletó de madeira” e “ter um troço”. Quis ficar chateado por conta do Syd mas, ao final de tudo, tudo que consegui foi ficar com dó de mim mesmo. Há não muito tempo atrás, disse a alguém que “torcedor sazonal não tem direito a sofrimento”. Pois bem, hoje que provou do remédio fui eu.
