Sunday, August 15, 2010

O peido e a percepção do outro

De que inalar o próprio peido é algo prazeroso não tenho dúvida. Antes de retorcer a cara em desaprovação, faço um convite: lembre-se do último flato solitário que você exteriorizou. O que você fez? Abanou para longe? Duvido! Refiro-me àquela erupção gasosa debaixo do cobertor que, se arde nos olhos e narinas, é a própria experiência da sublimação do "conforto de si mesmo". Em suma: a experiência exteriorizada de si próprio. Ainda que em poucas palavras, expliquemo-nos a partir de agora.

Escolho o peido como a salvação da vida em sociedade por se tratar de um ato de natureza único, política e femomenológica ao mesmo tempo, por proporcionar não só uma autodescoberta do sujeito enquanto outro (o peido deflagrado) mas também – e muito por conta dessa "duplicação do eu" – do inevitável desvelamento do "outro político" ao sujeito até então enclausurado em sua miserável existência.

Como dito acima, é evidente que o peido pode ser tratado como uma verdadeira "duplicação do eu". Aristóteles poderia dizer que nos vemos no reflexo do olho do outro, mas acredito que o peido pode se tratar de algo mais poderoso neste caso (pelo menos em termos políticos). O poder do flato teria seu poder justamente aí, por não carregar o conteúdo visual da figura humana, tão carregada das idiossincrasias de cada um de nós e, portanto, tão enfraquecido de universalidade. O peido, mesmo aquele mais fedido, funciona como uma espécie de denominador político comum pois, ao mesmo tempo emque seu odor aconchegantemente característico denuncia a presença humana, não diz de fato nada a respeito do autor do flato em questão. Com efeito, não importa quem peidou, mas que alguém o fez.

Trilhando esse caminho do cogito flatulento do "eu peido", passando pela fenomenologia quase merleau-pontyiana (meramente no que tange a questão fenomenológica) da "duplicação do eu", chegamos então à inegável percepção da universalidade: qualquer um peida. Afirmar-se como homo flatus pode parecer pouca coisa mas é lastro social inegável: eu peido, ele peida, todo mundo peida! No limite, é a garantia cartesiana de que em algum registro é possível que eu me identifque com o outro no ato de peidar. Mais ainda: posso até sentir nojo ao inalar o flato alheio, mas isso é insignificante quando pensamos quesomos capazes de ter a mínima noção do prazer que aquilo que deixa nossas narinas mornas deu ao autor do peido em questão. Não estamos falando de tolerância ao peido alheio visto que tolerar, em algum sentido, é diminuir o outro diante de si (só toleramos aquilo que pensamos ser "menor" que nós, afinal de contas) mas de um novo conceito nas relações sociais. Lembrando Marcel Mauss, estaríamos falando de uma espécie de "reciprocidade social" cujos protagonistas seriam o peido de um e as narinas do outro. Enfim – e Hannah Arendt não nos desautorizaria afirmá-lo –, peidar é a própria consumação da ação política!

Peidemos e confraternizemos!

Tuesday, July 13, 2010

Fraldinha of the Damned, receita para heróis

Fraldinha of the Damned (serve um herói)


Com sua two-handed sword, dilacere duas batatas grandes em fatias grossas. Deixe a casca (descascar é para os infieis);

Erga as mãos ao céu, acenda o fogo mais alto possível (somos metal, afinal de contas);

Numa panela sagrada, deixe as batatas cozinhando enquanto você ouve a versão demo e instrumental de algum hino do Blind Guardian. Não deixe que fiquem moles (somos metal, afinal de contas);

Cozidas as batatas, reserve-as;

Pilhe uma peça de 300g de fraldinha (caso sua mãe não deixe, compre no supermercado mas faça cara feia). Sele a carne na panela que você usou para as batatas (quanto menos louça, melhor);

Pegue a assadeira que você pilhou na casa de sua avó semana passada. Consagre-a a Odin;

Coloque a fraldinha na assadeira. Entoe um cântico pagão;

Passe manteiga na carne. É manteiga, porque quem usa margarina gosta de Radiohead. Porra...

Tempere com sal e pimenta do reino à vontade (dos deuses). O primeiro representa os duros invernos com muita neve enquanto o segundo lembra as cinzas das pessoas que você imolou no mês passado;

Ajoelhe-se e acenda o forno. Peça em voz alta para que o fogo seja forte o suficiente para suba aos céus (apesar de ser um forno). Forno é um parente distante da fogueira, portanto é sagrado. Espere para que o forno aqueça e cante Fight Fire With Fire enquanto isso;

Coloque as batatas semicozidas em torno da carne. As batatas representam os moradores de um vilarejo e a carne, o sacrifício aos deuses. Jogue neve... sal nas batatas e um pouco de azeite. Mande a assadeira para o forno e feche. Sorria com o canto da boca, cruze os braços por um instante;

Ligue o som da sala, coloque o Land of the Free para tocar. Perceba como os estalos da carne assando se sincronizam perfeitamente com as músicas. Ouça até a faixa 4 (não sabe o nome da música, né seu indie safado?);

Abra uma cerveja;

Arrote;

Abra a janela e olhe para o horizonte. Cruze os braços;

Volte para a cozinha. Tire a faca de sua cintura. Corte um dente de alho em pedaços finos e uma cebola em pedaços grandes;

Cerimoniosamente, vire a carne. Vire as batatas;

Caso não estejam coradas, volte para a sala e ouça até a faixa 6;

Viradas as batatas e a carne, jogue as fatias do alho em cima da carne e espalhe a cebola pela assadeira. Dê uma risada sinistra e em letras maiúsculas. Feche o forno;
Abra outra cerveja. Ouça o Seventh Son of a Seventh Son até o verso “he is the chosen one”;

Arrote tentando fazer som de “ô”;

Abra o forno e pegue a assadeira. Coma tudo na própria assadeira ou, se for um fraco, num prato;

Lave a louça antes de levar uma bronca de sua mãe;

Vá para o quarto e faça um metal horn olhando para o espelho...

Thursday, January 22, 2009

A história do azarado fiel pecador - Parte I

Bom, este é o meu primeiro post que não trata sobre a morte de um membro do Pink Floyd. Ao mesmo tempo, é sobre uma experiência que tive agora há pouco voltando do jogo de meu Todo Poderoso Timão.

Resumindo, toda vez que vou ver o poderoso in loco, ele perde (e geralmente chove também). Fazendo uso de licença poética e não conseguindo me libertar dos escritos do incomparável Eduardo Galeano (por favor, NUNCA tive a pachorra de querer me comparar a ele!!!), tive que escrever o que abaixo se segue, já me desculpando por eventuais erros de digitação e de não-adequação à reforma ortográfica.

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Minha vida de devoto praticante sempre foi abalada por um fato que os números não negam: toda vez que resolvo desafiar a escrita e vou ao estádio o Poderoso sofre um revés, preferencialmente acompanhado de chuva. Mesmo ciente de que meu voto de abstinência é parte constituinte da boa sorte alvinegra, um ano de privações e sofrimento foi demais para este pobre devoto que caiu em tentação e pecou. Confesso que parti de minha humilde casa já com a pior das intenções: não vestia uma única peça tingida da cor inimiga, sequer fizera uso de alface, couve, repolho ou semelhantes que compartilhassem da mesma coloração pecaminosa. Sozinho e como quem cometia o maior dos crimes – e não teria realmente sido? – desafiei a maldição e parti rumo ao templo corintiano de louvor.

Até agora não sei se a lágrima dispendida foi por ver a entrega da massa pulsante ou pelo irresponsável ato de traição que acabara de cometer, mas a verdade era que me sentia o próprio filho voltando à casa. “Ninguém vai ficar sabendo, vai dar tudo certo”, pensava, como quem se nega a acreditar na maldição que mais uma vez cairia sobre o escrete glorioso. Ao mesmo tempo, o filho que à casa reotrnava não se sentia bem-vindo ao lembrar que se ali estava, era fruto de pecado.

A chuva não era suficiente para incomodar pelo volume, mas cada gotícula que caía em mim era uma tonelada de remorso que se acumulava. A verdade era dura mas uma só: teria que aceitar meu destino a partir daquele momento e esperar por um milagre, o fim da terrível maldição daquele que foi proibido de demonstrar sua fé dentro do mais sagrado dos templos.

A bola rolou e a chuva deu um tempo. Esboçou-se um início de sol mas já sabia de que não passava de ironia da mãe natureza que não sei se deu uma paradinha para ver o poderoso (ninguém é de ferro, afinal de contas) ou se finalmente testemunharia a libertação deste tão injustamente condenado. Ao mesmo tempo em que as nuvens cinzentas retomaram seus lugares de direito, a bola começava a rolar de uma forma estranha, como se estivesse possuída. O vermelho e amarelo do esférico que todos creditaram à falta de bom gosto do fabricante na verdade era a própria gorduchinha ardendo em brasa, queimando no pé dos nobres mosqueteiros. Aos adversários, de uma pequena província não muito longe daqui, restou um misterioso surto de daltonismo, que fazia com que a bola rolasse calma e harmoniosamente entre eles, sem que a chama que nos incomodava os abaasse igualmente. Nosso maestro, o que ostenta a dezena em suas costas e que se fosse vivo nos tempos da inquisição teria ardido em uma fogueira justamente acusado de bruxaria, não era capaz de domar aquele ser enfurecido que teimava em pular e correr em direção ao porto seguro dos pés inimigos. Nosso capitão, clarividente comandante que tudo vê lá de trás, ousou furar todas as fileiras e, sozinho, dar um fim àquilo tudo. Seu golpe de cabeça viu a enfurecida esfera resvalar no travessão inimigo antes de sair para fora do campo de batalha. O impasse continuava...

Pouco depois, o que se viu foi a consumação do primeiro ato da tragédia: tento inimigo. Pouco pude fazer, mal pude ver. Dizem que o inimigo se encontrava em posição que, na guerra, chamam de impedimento. Pouco importa, nosso guardião mais querido, o do portão, fora covardemente derrotado. Um companheiro de fé ao meu lado culpava a indumentária do guardião negro do portão, que o fazia ficar igual a uma lombada enquanto o outro condenava a família do árbitro a uma temporada em cada um dos nove círculos do inferno danteano. “De novo não, de novo não”, repetia este pobre sofredor, em tom confessional, cabisbaixo, já prevendo o pior. Tal como nas tragédias gregas, sucedeu então o côro, desta vez à melhor maneira de um mantra, emanando ondas alternadas de “Timão ô ô” e "ô ô ô, Todo Poderoso Timão" que energizavam nossos jubilosos representantes co campo de batalha.

Para não ser injusto ao economizar nos detalhes, passados três quartos do combate o templo presenciou um milagre de nosso guardião do portão, que, sozinho, com uma só mão, parou uma flecha flamejante disparada por um inimigo a menos de um metro de distância e que anteciparia o fim da guerra. O anjo negro, que é protegido por um item mágico a ele confiado – chamam-no de “terço” –, fora avisado de que uma maldição terrível operava no templo naquela noite, ainda assim gritava palavras de incentivo a seus companheiros que, valorosamente, buscavam a reconquista da glória na batalha que estavam a um fio de perderem. Nosso homem pelo flanco destro, que muitos insistem em não reconhecer seu valor, usava suas botas de Mercúrio e nenhum inimigo era capaz de pará-lo. É importante lembrarmos também a sobriedade do companheiro de defesa de nosso capitão que, como seu próprio nome diz, pode ter um futebol esteticamente franciscano, mas de uma eficiência indiscutível. Meu favorito naquela noite, tenho que confessar, era o profeta, Elias. Talvez, por ter surgido como fogo e por proferir palavras que queimavam como uma tocha, a maldição da bola em chamas não o afetava, entretanto, ainda assim era pouco para tamanha desgraça.

Mas como a fortuna nem sempre sorri aos valorosos, quis que o mediador entre os dois exércitos – um infeliz cujo grande sonho era ser um daqueles bravos combatentes, mas que a falta de virtù os impossibilitou de seguir na carreira de soldado – assinalasse o chamado “pênalti”, ou seja, quando um dos soldados impede um inimigo de prosseguir dentro da área de perigo de 18 jardas utilizando-se de expedientes supostamente injustos (como se algo fosse justo numa guerra). A sentença não poderia ser mais covarde: chance de, covardemente, violar o portão inimigo com um golpe de curtíssima distância, 12 jardas, tendo apenas o guardião do portão à sua frente. Deu-se o segundo tento, sem que houvesse algo que nosso herói da longínqua terra setentrional chamada Bahia pudesse impedir, o que tornava mais óbvio que a maldição mais uma vez se repetia, assim como a chuva, que ironicamente voltara, ria de mim e de meu cada vez mais pesado fardo do fiel cuja missão era eternamente abrir mão do louvor para salvar a fé. Incrédulo, faltando um nono do tempo de batalha, não sabia o que fazer. Custava a acreditar que os nobres mosqueteiros mais uma vez fracassariam por minha culpa. Até o virtuoso maestro da guerra, aquele que suspeitavam ser um bruxo, fora substituído no campo de batalha pelo jocoso soldado de uma só perna, e que, reza a lenda, perdeu a melhor delas.

Diz a história que, ao fim das guerras, o grande líder, ao não conseguir mais vislumbrar a vitória, recorre ao suicídio para ao menos preservar a dignidade de seu povo. Em um ato de desespero, pensei que a mim, ainda que não se tratasse do líder da grande nação, cabia ao menos o ato do sacrifício visto que sabia ser eu a gênese da maldição que nos privava da vitória naquela árdua batalha e então, aos oito nonos do período regulamentar, retirei-me do solo sagrado esperando desesperadamente que o feitiço se desfizesse. Ao colocar o pé para fora do sítio sacrossanto, tenho a notícia de que, através da penalidade máxima, nosso exército conseguira violar o portão inimigo pela primeira vez e, minutos depois, o fizera de novo através de um golpe de cabeça daquele que, justamente por sua estatura, é apelidado de "Baixola". Ao fim do período regulamentar as duas tropas reconheceram a condição de igualdade e declararam que a batalha chegara ao estado que costumam chamar de “empate”, quando nenhum dos dois lados mostra-se superior.

Se por um lado saí feliz já que não fomos derrotados, fica evidente que mais uma vez a maldição sobre mim triunfou e que com ela continuarei a andar. Nada mais irônico para o nosso exército, que tem como um dos mais valorosos heróis um soldado cujo nome é o mesmo do grande filósofo, Sócrates, personagem de diálogos cujo fim não raramente era a aporia. O triste fato é que o que inicialmente me motivou a presenciar a batalha pessoalmente foi a promessa de um grande sábio de que a maldição se acabaria simplesmente pelo garbo de nosso exército, que, mesmo amaldiçoado, um dia sairá vencedor no campo de batalha mesmo tendo a mim como testemunha e então, o encanto seria desfeito de uma vez por todas.

A mim, cabe o dilema de decidir a respeito do que fazer. Nossa nação tem agora um soldado a quem são creditados inúmeros milagres, o que lhe valeu a alcunha de “fenômeno” e rumores dão conta de que essa lenda viva estará apta para o combate dentro de dois ciclos completos da lua. Sou fiel, e do fundo de meu coração desejo ver com meus próprios olhos o que esse guerreiro espetacular pode fazer, mas antes tenho dar fim a esta maldição porque se nosso novo virtuoso falhar, sei que a culpa será toda minha e, dessa forma, sei que a fúria de meus companheiros de fé sobre mim toda cairá. O que fazer? Colocar em risco a sorte de nosso escrete nos próximos confrontos em solo sagrado para que a maldição seja desfeita? Ou devo eu me recolher à minha insignificância e negar-me definitivamente o direito de presenciar os milagres do novo guerreiro que às nossas fileiras se juntará? Esta é a sina deste fiel sofredor que já não sabe mais o que fazer.

Monday, September 15, 2008

And in the end we're only ordinary men...

Nunca tive a menor (e mórbida) intenção de tornar este um blog temático, mas devo admitir que as duas últimas ocasiões nas quais senti vontade de escrever algo foram as dois dois posts que aqui se encontram.

Richard Wright morreu e não consigo escutar outra coisa que músicas do Pink Floyd há duas horas, no desesperado exercício daquele que tenta prorrogar o inevitável, ou pior, o que já foi. Há algum tempo atrás - com o passar do tempo ficamos com receio de usar expressões como "há uns 15 anos" - ouvi Us and Them com mais atenção pela primeira vez. Não descobri as drogas, a sociedade alternativa ou coisa do tipo, mas vi como o silêncio nos compassos da canção não representam a falta de conteúdo, mas a sabedoria da escolha do que realmente aprender visto que a existência de um ser humano perto da soberana linha do tempo é insignificante, um ponto da reta euclidiana. Anos mais tarde, ao ver a notícia de sua morte, Rick Wright me fez perceber o quanto ele me ajudou a entender que eu nunca vou dar conta de entender o que é a reta inteira - e que caso assim pense, Euclides já me condenou há muito - e que não devo ficar frustrado por conta disso. No fim, somos apenas gente comum...

Se o céu fosse feito só de estrelas, o que seria da noite afinal de contas?

Obrigado Rick!

Tuesday, July 11, 2006

Shine on, Syd!

Devo admitir que há uns quatro anos jurei que não ousaria incomodar o mundo mais uma vez com boçalidades, e digo que suportei bem durante esse tempo todo principalmente pela falta do que escrever, ou por ter descoberto que nunca tive muita coisa importante para escrever, mesmo achando até então que tivesse alguma coisa importante para escrever. De quatro anos para cá continuo escrevendo mais ou menos da mesma maneira, vivendo mais ou menos da mesma maneira e não tendo algo mais ou menos relevante que merecesse meia hora diante do processador de texto, mas o fato é que três anos de sofríveis dissertações sobre filosofia me fizeram chegar à conclusão de que a única coisa sobre a qual sei escrever é justamente a falta do que escrever.

Passava das sete da noite e ainda me encontrava no trabalho quando algo aparece na tela do computador. “ENC: Morre Syd Barrett, fundador do Pink Floyd” era o assunto do e-mail, e aquele “ENC” à frente do título dava a forte impressão de que se tratava de mais um desses trotes cibernéticos imbecis. O problema deste trote era a falta do detalhe principal dos trotes imbecis: eles costumam ser grandes mentiras. Minha primeira reação foi não ter reação para, logo depois, pensar em ligar para um colega que é doente pela banda, e minha terceira reação foi a de não reagir novamente, o que me leva ao presente momento. Tenho o infeliz costume de pensar mais do que devia acerca de coisas que talvez são evidentes demais para merecer tamanha reflexão, mas fiquei atônito justamente pelo fato de não ter ficado atônito: descobri da pior maneira que não gostava de algo tanto quanto eu gostaria, ou de quem pelo menos, tinha certeza de que gostava. Sempre gostei mais dos discos da fase posterior à do Syd, mas ter que pesquisar no google com quantos “m” se escreve Ummagumma automaticamente me tira o direito ao sofrimento. Justamente dias após a saída do Brasil da copa do mundo, quando condenei metade da população por tentarem dividir um sofrimento que pertencia somente a mim e mais meia-dúzia de cretinos que se julgam o dono do universo paralelo do futebol somente pelo fato de gastar mais com camisas de futebol que com livros, por exemplo. Só me sinto tão hipócrita dessa maneira quando como bacalhau na semana santa.

É bem provável dia em que meus pais ou o Paul McCartney morra eu sinta aquela tristeza de verdade, aquela que você sente por causa de alguém, e não por causa de você mesmo, que está triste por não conseguir a proeza de ficar triste. Por algum tempo concedi a mim mesmo o direito de ficar triste pelo fato de saber que todo cara que tem uma guitarra encostada em casa tem o Syd como um xodó que você sempre acha que um dia vai voltar, como aquele tio legal que te visita de vez em quando e que por causa dele você é corintiano ou palmeirense, a copa que você torce para que o Zagallo ganhe de novo. Mas quando penso em mim pensando nisso vejo que há algum tempo digo que “nasci corintiano” e que toda vez que a câmera enquadrava o velho lobo durante os jogos da copa toda frase continha expressões como “empacotar”, “paletó de madeira” e “ter um troço”. Quis ficar chateado por conta do Syd mas, ao final de tudo, tudo que consegui foi ficar com dó de mim mesmo. Há não muito tempo atrás, disse a alguém que “torcedor sazonal não tem direito a sofrimento”. Pois bem, hoje que provou do remédio fui eu.